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Produção Mais Limpa Um Estudo Teórico Sobre Sua Importância no Contexto Ambiental e Econômico e Sua Aplicabilidade na Visão da Ecologia Profunda

 

INTRODUÇÃO

AO resultado desse pensamento, assimilado pela sociedade, gerou e agravou grandes consequências ao planeta, principalmente por práticas econômicas descompromissadas com os danos ambientais, que tiveram e estão tendo um impacto nocivo de vasta abrangência comprometendo a harmonia ecológica de todo o planeta.

Alguns dos fatores preocupantes que foram resultado deste sistema de produção:

Escassez e poluição das águas; Agravamento da poluição atmosférica; Radicais mudanças climáticas; Geração e disposição inadequada de resíduos tóxicos; Poluição do solo; Comprometimento da biodiversidade; Escassez de recursos naturais.

A busca para um modelo ideal de sustentabilidade que não agrida ao meio ambiente e ao mesmo tempo não comprometa o desenvolvimento das organizações é uma finalidade que é aclamada por toda sociedade (LAYRARGUES, 2000, p. 56).

Layrargues (2000, p. 59), acrescenta ainda, que a recente conscientização destes fenômenos por parte de instituições em todo o mundo fez com que se repensasse todo o sistema de produção, e ficou evidente que as empresas necessitam mudar seu comportamento no que se refere às relações com o meio ambiente e promovendo desenvolvimentos sustentáveis, optando por uma produção mais limpa. Por decorrência de uma sociedade ávida por valores éticos e morais, a qual exige das empresas uma atuação responsável e desprezar seu juízo é um erro sem precedentes, para qualquer instituição nos tempos atuais (FISCHER, 2004, p. 24-25). Como consequência desta conscientização ambiental as organizações modernas passaram a incluir em seus planos de gestão considerações relativas ao aspecto social e ambiental, que de forma geral envolve a redução dos níveis de poluição e a melhoria nas condições de trabalho.

Farah (2001, p. 13-22) concorda que as empresas estão buscando mudanças em sua postura, deixando de ser passivas e reativas para adotar um comportamento ambiental proativo. Neste contexto histórico de mudanças percebe-se que ao mesmo tempo em que a crise ambiental se apresenta como uma ameaça à sobrevivência humana e da natureza em geral, ela também aparece como um fenômeno que contribui para a conscientização de toda a humanidade em relação às questões ecológicas, e como uma oportunidade de auto-superação, exigindo a quebra de antigos paradigmas e a construção de novos.

Com todo esse contexto, na busca pela otimização dos materiais utilizados por setores de produção, que tem em seu processo o contato com a natureza, se tornou um fator de fundamental importância. As implementações de ações efetivas voltadas para a redução do impacto ambiental representam a possibilidade de se atenuar o atual quadro de degradação ambiental presente em todo o planeta (HART, 1995, p. 986-1014).

Sendo assim, o desenvolvimento de metodologias “ecologicamente corretas” para implementação nos setores de produção vem sendo um quesito crucial neste processo de conscientização ambiental por parte das indústrias. Entre diversas metodologias desta área este artigo destaca a denominada Produção mais Limpa (P+L), que aparece como uma alternativa para a busca de soluções para os problemas ambientais.

Portanto, este artigo foi desenvolvido com o intuito básico de compreender melhor o que vêm a ser a P+L (Produção mais Limpa) e sua concepção vista pela ecologia profunda. Foram traçados os seguintes objetivos: Compreendê-la; analisar quais as características e objetivos; pesquisar quais seus conceitos básicos; entender sua importância no contexto socioeconômico atual; apontar os benefícios de sua aplicabilidade; verificar os setores nacionais responsáveis pelo seu desenvolvimento e por fim, discutir a aplicabilidade do modelo da estratégia mercadológica no ponto vista da ecologia profunda.

Nesse artigo será apresentada uma visão sistêmica do processo tecnológico (P+L) proporcionado pelas indústrias no sentido de minimizar os efeitos dos impactos ambientais no meio ambiente. Contudo serão feitos criticas a esse processo através da visão da ecologia profunda. Apesar dos esforços das organizações para se adequar aos novos modelos socioambientais e econômicos. Essa adequação na maioria das vezes ocorre de forma coercitiva pelo poder público, que através de taxas, multas ou incentivos fiscais forçam as corporações a exercer essas políticas ambientais. Outra forma de adequação dessas organizações seria através do público consumidor (sociedade), que por perceber a origem duvidosa dos produtos passam a boicotá-los. Entretanto, essa ferramenta ainda é usada como modelo na crença de que “para a maximização de qualquer benefício e nosso bem-estar e riqueza, é preciso maximizar o desenvolvimento econômico”, numa abordagem mecanicista, eco marxista e unidirecional, em que a natureza é vista em segundo plano e a sua existência é somente para a satisfação do homem.

A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE PRODUÇÃO LIMPA

Analisando-se o surgimento da Produção Limpa (PL), um programa desenvolvido antes da P+L, com princípios e definições verifica-se que a sua base conceitual fundamenta-se na proposta da organização ambientalizada também no Greenpeace, que visa um sistema produtivo saudável, que se preocupa com a limpeza, a preservação e o bem-estar do meio ambiente.

Lerípio (2001, p. 43) afirma que os princípios da PL surgiram nos anos 80, sendo que esta era uma campanha para mudança mais contundente da política de comportamento industrial.

Uma das características desta época consiste justamente no despontamento global, por parte de instituições governamentais e organizações não governamentais (ONGs), da preocupação relacionada ao aspecto de interação entre as indústrias e o meio ambiente.

O Greenpeace definiu algumas características que a organização “limpa” deveria implementar; as características citadas buscam definir um sistema de produção industrial que incorporasse a variável ambiental em todas as fases produtivas, tendo como foco principal à prevenção na geração de resíduos. Estas características são descritas pela Fundação Vanzolini (1998, p. 1), e são as seguintes:

A auto sustentabilidade de fontes renováveis de matéria-prima; A redução no consumo de água e energia; A prevenção da geração de resíduos tóxicos e perigosos na fonte de produção; A reutilização e reaproveitamento de materiais por reciclagem de maneira atóxica e energia eficiente; A geração de produtos de vida útil longa, seguros e atóxicos, para o homem e meio ambiente, cujos restos (incluindo embalagens) tenham reaproveitamento atóxico; A reciclagem (na planta industrial ou fora dela) de maneira atóxica como alternativa para as opções de manejo ambiental representadas por incineração e despejo em aterros.

BENEFÍCIOS DA IMPLEMENTAÇÃO DA PRODUÇÃO MAIS LIMPA

Considerando que a P+L é focada na minimização de resíduos na fonte, Lora (2000, p. 16) descreve os seguintes benefícios:

  1. a)o controle de resíduos na fonte leva à diminuição radical da quantidade. Consequentemente, se reduz custos de produção devido à utilização mais eficiente das matérias-primas e da energia, bem como custos de tratamento;
  2. b)a prevenção de resíduos, diferentemente do tratamento de resíduos, implica em benefício econômico, tornando-a mais atrativa para as empresas;
  3. c)melhoria da imagem ambiental;
  4. d)maior facilidade em cumprir as novas leis e regulamentos ambientais, o que implica em um novo segmento de mercado.

ELUCIDAÇÕES SOBRE ECOLOGIA PROFUNDA

A expressão ecologia profunda (deep ecology) surgiu durante a década de 70, no século passado, instituída pelo filósofo e pensador norueguês Arne Naess, esse conceito foi criado em contraposição ao pensamento convencional ecomarxista e cartesiano que focava o homem como ser superior, e que a natureza existia para satisfazer suas necessidades. Com a instituição desse conceito houve uma quebra de paradigmas na maneira em que se vê a natureza, já que o antropocentrismo era substituído pelo ecocentrismo numa visão holística das coisas em que todos fazem parte da natureza e que todas as espécies têm igual importância. O quadro 1 demonstra, as propostas de Arne Naess e as suas diferenças frente à visão de mundo predominante. Figueiredo, Almeida e César, (2004 p. 10) acrescentam que a ecologia profunda defende o desenvolvimento de uma consciência ecológica que através do autoquestionamento e do diálogo, leve a humanidade a abandonar o paradigma antropocêntrico e a ver-se a si próprio como uma parte interativa e fundamental de um todo mais abrangente que é o mundo natural.corroborando com o pensamento anterior, Capra (1982, p. 402) nos fala que o sentido da expressão ecologia profunda pode ser designado pelo fato do homem com esse novo paradigma e modo de pensar sobre a natureza, mude o comportamento da humanidade e que as ações produzidas junto à natureza sejam pensadas de maneira global e essas atitudes comecem de forma local.

No entender de Donald Worster (1985, p. 34) a ecologia profunda é lançada contra o seguinte alvo de uma visão egocêntrica em uma classe media ambiciosa que esta voltada para a tecnologia, produção sem limites e no consumo ilimitado pautado no individualismo e no domínio da natureza. Portanto, todos esses conceitos e pensamentos vão de encontro ao quadro ilustrado por Arne Naess.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este relato teve a preocupação básica de apresentar e analisar alguns fatores referentes à importância da metodologia de P+L, e à sua eficiência no incremento de políticas de desenvolvimentos sustentáveis em instituições industriais que tenha por finalidade maneiras corretas de sustentabilidade.

Fica evidente na literatura da pesquisa, que no geral a metodologia aplicada tem um enfoque muito restrito, limitando-se a considerar apenas os efeitos das corporações, e não consideram as causas e a questão de forma holística. Também ficou evidente que o programa não direciona para uma política de modificações dos padrões de consumo e somente a substituição para um consumo diferente. Em que o problema ambiental é tratado pelo eco (ego) – capitalismo, dando continuidade à racionalidade econômica e à ideologia dominante da sociedade industrial de consumo (BRÜGGER, 2003, p. 4-5). Outro fato importante a ser destacado, em decorrência do pensamento anterior, é que como não se tratando de uma estratégia ligada à ecologia profunda, não integrando o social, ambiental e econômico, essa estratégia não educa e não estabelece artifícios profundos de conscientização ecológica.

O que poderá acontecer (ou está acontecendo) com essa metodologia tecnológica, é que novas fábricas surgirão com a mesma estratégia. Em que com a permissão da sociedade e com um discurso “politicamente correto” sobre sustentabilidade e usando de uma maquiagem verde, essas indústrias terão mais e mais filiais usando a mesma estratégia e com isso agravando ainda mais o problema da sustentabilidade do planeta.

De fato as tecnologias ambientais são importantes e necessárias, porém não suficientes para dar conta da degradação da vida no nosso planeta. Mais significante, entretanto, é definir o que sejam tecnologias ambientais. Serão apenas tecnologias não-poluentes? Serão elas também saudáveis socialmente? (BRÜGGER, 2004, p. 111).

Por fim, temos que conceber as tecnologias não como produto das relações de dominação na sociedade. Em que essas metodologias, nesse artigo estudada a Produção mais Limpa, são influenciadas tanto na sua construção como na sua utilização pelo pensamento unidimensional, ou seja, pela racionalidade instrumental, baseada na maximização dos lucros (MARCUSE, 1984, p.169).

Prof. Msc. Ricardo Delfino Guimarães

Graduado em Ciências Contábeis pelo CESVALE. Especialista em Direito e Gestão de Empresas pela UFSC. Mestre em Administração de Empresas pela UNIVALI. Doutorando em Engenharia e Gestão do Conhecimento pela UFSC.